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Para mim, tenho "The Shaping of Things to Come" com uma importância semelhante ao "Emerging Churches", são semelhantes em questão de importância para o entendimento da igreja emergente, no entanto, enquanto o TEC faz um relatório muito bom do que é a igreja emergente hoje, o TSOTTC nos ajuda a entender o porquê da necessidade de uma nova igreja hoje e nos dá o caminho para esta jornada.
Os autores começam descrevendo o evento "Burning Man", um mega evento realizado no deserto de Nevada, Estados Unidos em que promovem diversas manifestações artísticas e também espirituais com o detalhe que eles deixam o local tão limpo quanto encontraram antes da festa, (Vendo o evento, logo me veio o contraste do que vi na rua após a Marcha para Jesus), só que o evento não é cristão, longe disso, mas é um evento que soube chamar jovens interessados em expressão e espiritualidade.
E os autores lançam a pergunta que passa a bater a mente: porque a igreja não é mais o primeiro lugar onde as pessoas vão buscar por espiritualidade?
Temos problemas, se pensarmos bem, se ouvirmos mais atentamente ao que Cristo falou e vermos o que é a igreja hoje vamos concluir que a igreja acometeu em um desvio de rota.
Os autores apontam três equívocos na igreja atual chamada como estando no modo Cristandade:
Os autores apresentam a igreja atual como Atracional (não encontrei uma palavra melhor no português): Ela espera que as pessoas venham para encontrar Deus e tenha comunidade com outros; Dualista: é pródiga em separar o sacro do profano, o santo do não santo e quem está dentro e quem está fora e Hierárquica: ela tem um enfoque sistêmico em sua ação e na sua forma de ver as coisas, que vai tanto da forma que vê e aplica teologia até a sua forma de organização. Os autores lembram Eistein que falou que a solução para um problema deve ser de origem diferente do que o gerou. Isto é, os problemas gerados pela Cristandade devem estar fora da caixa da Cristandade. Por isso os autores propõem uma igreja no modo missional, neste modo ela apresentará três características:
Será Encarnacional isto é, deixará suas zonas de conforto religiosas para conviver em outras culturas levando sal e luz a elas;Será Messiânica, que é uma espiritualidade de engajamento na cultura e no mundo da mesma forma que o Messias fez; Será Apostólica(e não confundam com este termo já apropriado pela Igreja Renascer e muitas outras igrejas para criar alguma legitimidade a seu movimento), ela deverá desenvolver uma forma apostólica de liderança ao invés da forma tradicional hierárquica (aqui vocês podem notar a grande diferença).
Uma Eclesiologia Encarnacional - Encarnacional vem de encarnação, a maior inspiração é o próprio Deus que se fez homem em Cristo e veio viver em nosso meio (se encarnando), a forma atracional vem do modo que as igrejas trabalham de atrair as pessoas ao seu meio para que somente lá elas desfrutem daquilo que a igreja oferece.
De tantas coisas interessantes que eles discutiram, uma coisa que tem me feito pensar nos últimos dias é um dos fatores que eles apresentaram que diferenciam essa igreja atracional da igreja encarnacional: é o enfoque de definição de limites da igreja atracional e o enfoque de definição do centro da igreja encarnacional, para isso eles definiram a figura das fazendas com cercas e as fazendas com mananciais.
Há fazendas que colocam cercas para que o gado não possa invadir outras propriedades e se perder e há outras fazendas que não podem fazer o investimento de estabelecer cercas mas buscam manter seu gado ao redor dos seus mananciais aos quais eles recorrem de acordo com sua necessidade.
Nas igrejas atracionais (não encontrei um nome melhor para traduzir esse termo), se estabelecem limites muito claros para definir quem está dentro e quem está fora, a igreja é definida por seu rol de membros, alunos matriculados em escola dominical e também seu código de conduta que é o que marca mais claramente "os de dentro", nesse modo, a conversão a Cristo implica também em uma mudança cultural mais profunda que às vezes não está ligado diretamente ao evangelho de Cristo, mas ao que a comunidade pratica, o interessante é que este modo chega a ser tão rígido, que sair da cerca significa o ostracismo, quase uma traição.
O que me chamou a atenção no modo encarnacional foi a definição da igreja como uma rede de relacionamentos, e esses relacionamentos se fortalecem na fonte (o manancial) que é Jesus Cristo, as pessoas recorrem ou não à medida que elas descobrem o quanto o evangelho vivido e pregado é relevante à eles, a pessoa está ligada à comunidade à medida que ela está ligada às pessoas e se envolve com a comunidade através das oportunidades e propostas que ela lança. As pessoas participam da comunidade sem necessariamente terem se cadastrado no rol ou ter mostrado publicamente sua conversão, uma vez que a conversão é vista como um processo ao invés de algo extremamente definido com dia, mês e hora. Como já vi um testemunho de outro livro, o sucesso da igreja não está nos números do rol de membros mas nos relacionamentos mantidos pela comunidade.
Falando assim parece até fácil, mas ao final do livro, os autores comentam um pouco mais a esse respeito, e citaram um exemplo muito interessante de como uma comunidade construiu mananciais.
Eles falaram da South Melbourne Restoration Community, lá eles têm as crenças básicas centradas em Jesus Cristo expressas em três afirmações: A autoridade das Escrituras a respeito de toda a vida e a fé, Ressurreição como o milagre supremo, A Trindade: O mistério em ser três e a unicidade de Deus. Essas três bases são inegociáveis, no entanto ela não chega a detalhar como essas bases serão expressadas.
"Em termos de Teologia, South é compromissada apaixonadamente às bases centrais da fé bíblica (a autoridade da Escritura, Ressurreição e Trindade) mas não descreve como essas crenças serão expressadas. A liderança particularmente tem a responsabilidade de afirmar estas bases de fé. Mas outros são convidados a explorar a estes aspectos da fé do Novo Textamento de forma a fazê-la uma fé própria e particular. Dessa forma, outros ensinos mais periféricos (como forma de batismo) do ensino da Escritura são levadas seriamente mas não são determinativas para a comunidade, e uma larga variedade de interpretações são permitidas e encorajadas... A fé não é ditada para cada crente e transformada em fórmulas simples. Isso facilita essa jornada tão importante para a missão nas culturas globais emergentes"
A liderança lá é consciente que ela não deve mastigar toda a Teologia para que cada crente possa absorvê-la (da forma preparada pelo líder), cada líder tem a responsabilidade de inspirar sede pela palavra. Voltando às metáforas, eles falam que você pode levar um cavalo até ao balde d'água, mas não pode fazê-lo tomar água. Dessa forma o papel da liderança é, (1) Providenciar boa comida e (2) Cultivar fome.
Mais adiante, eles compartilham de forma interessante o que fariam em suas igrejas se tivessem que começar do zero:
- Como um médico, ouviria a seus pacientes - "Por que não permitir que o ritmo e o estilo de vida das pessoas que estamos tentando alcançar determinem nossa vida comum e nossos encontros de louvor?"
- Buscaria por homens de paz - Seguindo uma instrução que Cristo falou em Lucas 10, "quando entrarem em uma casa, diga, Paz seja sobre ela, se houver um homem de paz lá sua paz repousará nele, senão voltará a você... não fique vagando de casa em casa""Sugerimos que os novos plantadores de igreja levem mais seriamente esse papel de homens de paz ao invez de tentarem um trabalho de metralhadora. É radicalmente diferente que se basear em programas da igreja e tirar alguns convertidos ocasionais de suas culturas, e esperar que um dia você o envie de volta para alcançar outros"
- Multiplicação, não adição-"Colocar cada vez mais gente dentro do mesmo prédio não faz parte da agenda encarnacional"
- Liderança é vital - "Se pudéssemos fazer tudo de novo, nós construiríamos uma filosofia de liderança e visão, reconhecendo que uma liderança imaginativa, divina e bíblica é realmente vital"
- Atente ao uso dos prédios - "Ter um prédio, uma verba e algum staff pago não vai fazer da sua igreja uma comunidade necessariamente inefetiva, mas se sua comunidade estiver perdida sem elas, aí vocês têm um sério problema"
Vale a pena também ver a importância da questão da Contextualização e uma visão interessante de uma igreja messiânica em outras culturas.
Uma espiritualidade messiânica - Não há exemplo maior dessa espiritualidade como o próprio Messias, em um plano maior, ele deixou seu lugar ao lado do Pai para viver em nosso mundo, agindo da nossa forma e falando de uma forma que a gente entenda. Aqui, sua ação não se restringia às sinagogas e à conversa teológica, mas ao dia a dia em todo lugar. Por isso precisamos recuperar a centralidade de Jesus Cristo como o Messias em todos os aspectos da vida e fé de seus discípulos incluindo missão.
Foi interessante acompanhar uma comparação que os autores fizeram entre a visão de mundo Hebraica e a visão Grega, os gregos se preocupavam muito na definição das coisas, a visão hebraica era bem mais prática e vivencial, os hebreus conviviam com o Deus "Eu sou", nos primeiros séculos de cristianismo, precisamos definir os credos, que são realmente úteis a nossa fé mas reflete essa a questão especulativa dos gregos e deu margem a que muitos se contentem em conhecer o que seja Deus sem viver com ele. O viver com Deus nos faz santificar todos os aspectos da nossa vida assim como o nosso próprio dia a dia, ao invés de considerarmos coisas espirituais de coisas não espirituais.
Os autores também propõem que nossas ações são sacramentos:"Estamos certos de que nós podemos sussurrar às almas das pessoas pós-modernas para fomentar uma busca por Deus. Mas nós não acreditamos que os sermões e os cultos terão o mesmo impacto que tem tido até hoje em criar essa fome por Deus."
Pude entender bem melhor a expressão que tenho visto "A mídia é a mensagem", às vezes, aquilo que a gente tem utilizado como necessária a igreja (como lindos prédios, púlpito, bancos e um pregador erudito)podem estar falando muito mais do que se imagina e talvez distanciando a espiritualidade proposta do dia a dia das pessoas.
Foi muito interessante ver a figura que eles tomaram como uma voz profética necessária para hoje, a galinha Ginger, do filme "A Fuga das Galinhas", para quem lembra do filme, ela era a única do galinheiro que tinha uma visão de liberdade, para todas as outras galinhas, a vida era colocar ovos até ser sacrificada quando não conseguir colocá-los mais. Hoje precisamos de pessoas que acreditem no ideal de que uma igreja da forma que Cristo propôs é possível e que se esforcem em traduzir às pessoas que acreditam que igreja é o que a gente vê hoje em dia nos prédios e nas TVs que é possível uma nova reforma.
Liderança Apostólica - Vale mais uma vez lembrar que o termo apostólico utilizado aqui nada tem a ver com uma unção extra-especial dada a alguém que já galgou toda uma pirâmide de cargos de ofício religioso.
Os autores dão a esse aspecto de liderança uma enorme importância:
A questão do desenvolvimento de um novo tipo de liderança é possivelmente a questão estratégica mais importante nessa década, e, a resposta da igreja correta ou não definirá sua sobrevivência como uma expressão viável do evangelho nos anos que virão"
Baseando-se no que Paulo escreveu para os Efésios, eles propoem uma liderança que contenha pessoas com as funções:
- Apostólica -aqueles que empreendem novas aventuras missionais e supervisiona seu desenvolvimento;
- Profética -Discerne a realidade espiritual em um dado momento e o comunica de forma pronta e apropriada para aplicação na missão do povo de Deus;
- Evangelista - comunica o evangelho de forma que as pessoas respondam com fé e discipulado;
- Pastoral - pastoreia o povo de Deus liderando, nutrindo, protegendo e cuidando;
- Mestre - Comunica a sabedoria revelada de Deus de forma que o povo de Deus aprenda como obedecer a tudo o que Cristo ordenou.
Esse enfoque me lembra bastante ao enfoque que a Kairos de Los Angeles aplicaram ao desenvolver os Equiper blogs.
Os autores apresentaram também uma ecologia do crescimento missional através de características que a comunidade deve ter, ela deve ser Orgânica, como o corpo equilibrado apresentado também em Efésios, é reprodutiva, é auto sustentavel e auto regenerativo.
Eles destacam também o importante aspecto da imaginação e da criatividade nesse processo de liderança, pois, sem imaginação não haverão idéias a serem implementadas nem ambiente para se sonharem os sonhos que Deus fomentar.
Espero ter dado um estímulo para que você também leia o livro e o estude com sua comunidade, como já falei, é muito importante para a missão que Deus deu a você onde você está.
Alan Hirsch é diretor da Forge Mission Training Network, ao longo do livro somos apresentados a várias de suas iniciativas. O interessante também é ver a perspectiva da igreja emergente fora dos Estados Unidos e Inglaterra.
Cada um dos autores já lançou um outro livro muito bem comentado, Hirsch lançou "The Forgotten Ways: Reactivating the Missional Church", e Frost lançou "Exiles: Living Missionally in a Post-Christian Culture",
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