02 de setembro de 2010
 
 
Carta a Igreja do Brasil: Fábio Davidson PDF Imprimir E-mail
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Por Fábio Davidson   
14 de setembro de 2009

Até o dia 30 de Setembro teremos várias reflexões a sobre a igreja do Brasil, hoje colabora conosco o Fábio Davidson. Se você quiser ver do que essa série se trata e quem vai participar, veja o post de apresentação da série:

Querido Mateus,

 

Não sei nem por onde começar. Aliás, não sei nem como começar.

Pediram para que eu escrevesse uma carta para a igreja brasileira. Em primeiro lugar, quem sou eu para escrever para a igreja brasileira? E, mesmo que eu fosse alguém importante, não consigo nem definir “quem” é a igreja brasileira.

Tudo bem, você sabe que eu gosto de escrever. E, também sabe que eu gosto de História. Então, como acredito que você também é a igreja (eu preferia dizer que faz parte da Igreja), optei por escrever um pouco da minha história na(s) igreja(s). Vou tentar, então, voltar um pouco no tempo.

 

 

Em primeiro lugar, queria pedir desculpas. Afinal, nos seus quase 13 anos de vida, provavelmente a competição com minha vida dentro das igrejas foi desumana. Na maior parte das vezes, você perdeu.

No começo, eu achava que tinha um ideal. Quando dei por mim, percebi que ajudava a consolidar uma instituição e não o cristianismo ensinado, ou melhor, vivido por Jesus. Ao invés de discipular, aprendi a catequizar. Ao invés de amar, convencer.

Acho que é por aqui que vou começar. Não quero dar lição. Nem para você, nem para ninguém. Quero compartilhar um pouco da minha ansiedade, da minha decepção e, claro, da minha esperança. Mas, ao ler o que eu escrevo, reflita, medite. Afinal, se tanta gente vai por outro caminho e pensa diferente, pode ser que eu esteja errado e não eles.

Quando parei para escrever para você, pensei no quanto dediquei parte da minha vida a construir um obelisco. Sabe, igual aquele no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Ou o da Praça da República, em Buenos Aires. Ah, tem também o Monumento de Washington, nos EUA.

Onde eu quero chegar? Percebi que eu gastei tempo, esforços (físicos e psicológicos) e criatividade para construir algo que, de longe, é bonito, exuberante, marcante. Mas, que faz pouca diferença na vida das pessoas. Ajudei a consolidar projetos de instituições, muitos deles idealizados na tríade Adoração – Evangelização – Comunhão, muitos deles planejados e concretizados com corações sinceros. Porém, muitos deles cimentados com ego, falta de amor e mania de grandeza.

Sabe o que é interessante? Para construir um obelisco, você utiliza material muito similar ao que poderia usar para construir uma ponte. Hoje, esse é a minha meta: construir pontes.

Uma ponte liga dois lugares. Ela pode ser de madeira, ferro, concreto. Pode ser em arco, suspensa, estaiada. Pode estar sobre um rio, uma estrada, um vale. Não importa o estilo ou o material, seu objetivo é ajudar a transpor obstáculos.

Acho que é isso que Jesus quer de nós. É isso que Ele quer da Sua Igreja. Não só que fiquemos apontando para o alto, mas que sejamos pontes de ligação. Não uma igreja que fortaleça uma instituição, mas uma Igreja baseada em relacionamentos.

Desculpe, mas, nos últimos tempos, não consegui tecer uma opinião fechada sobre esse projeto estranho bolado por Deus, chamado Igreja. Talvez, porque este projeto é formado por igrejas (com “i” minúsculo) e igrejas são formadas por pessoas. E pessoas são diferentes, pensam diferente, erram. E nós somos pessoas. E precisamos aprender a conviver.

Então, não desanime quando perceber que as coisas dão errado na igreja. Mas, se em determinada igreja parece que as coisas estão dando muito certo, provavelmente alguma coisa vai mal. Estranhe quando descobrir igrejas gigantescas, onde tudo funciona como um relógio. Pode não ser uma igreja. Pois se parece mais com uma empresa, bem administrada por um executivo que recebe o nome de pastor ou por sócios que recebem o nome de conselho. Desculpe, mas não consigo imaginar que mil pessoas – ou mais – tenham um convívio de relacionamento real, profundo.

Agora, quando você encontrar uma igrejinha pequena, com seus cem, duzentos membros, lutando para equilibrar as finanças, com casos de doenças, dificuldades de convívio, trate de conhecê-la melhor. Descubra que os problemas vêm à tona porque as pessoas se conhecem e têm liberdade de contar suas dificuldades, ao invés de esconder suas mazelas em um véu de falso pietismo, na capa de um “Super Crente”.

Pelo contrário, perceba que muitos se conhecem pelo nome e não querem apenas um lugar para ir aos domingos, sentar, cantar, ouvir e ir embora. Querem compartilhar as descobertas, levar amigos, mudar hábitos, construir relacionamentos. Talvez, não seja uma igreja com grandes objetivos de mudar o mundo. Mas, se mudar a vida de algumas famílias, de um bairro, acho que esse é o caminho.

Pois é, mais uma vez, escrevi demais. Agora, de tudo isso, lembre-se que, se você construir um obelisco, todos vão comentar, elogiar, visualizar. Seu nome vai constar em atas e placas. Agora, se você construir uma ponte, pode ser que ninguém note, mesmo que usem constantemente para, literalmente, passar por cima.

Talvez seja isso que falte para nós. Talvez seja isso que falte para mim. Talvez seja por isso – e não por causa dos escândalos, das pilantragens, dos equívocos – que olhamos para uma “igreja” que dá vergonha. Talvez seja porque, enquanto olhamos para os erros dos outros, deixamos de fazer a nossa parte, gastar o material que nos foi dado para construir, ao menos, uma ponte.

Finalmente, um conselho. Critique, quando necessário. A voz profética não é o vidente que olha o futuro, como muitos pensam. É, na verdade, a voz que denuncia o erro do presente, à luz da revelação divina. Mas, não se torne um chato que só sabe apontar os defeitos. Tente construir, ao menos, uma ponte. Aprenda com seus erros. Invista em relacionamentos. Ame. Contagie. Torne-se um pequeno Cristo. Seja Igreja dentro da igreja que Deus te colocar.

 

Com amor,

 

Seu pai,

 

Fábio

 

 

fbio_davidson_alex_fajardo.jpgFábio Davidson é pai quatro vezes e, no (pouco) tempo que sobra, é funcionário público, blogueiro e jornalista. Também arrisca alguns passos na música e no teatro. Anda com amigos pensadores e amigos que agem. Escreve no http://doxabrasil.blogspot.com e produz o http://zOnAdARefOrmA.blogspot.com

(Foto: Alex Fajardo)

 

 

 

 

 

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Douglas Rezende  - Belíssima comparação     |2010-03-25 14:32:45
Vou tentar sempre construir pontes e colar cartazes nos obeliscos que indiquem o
caminho para cruzar o rio.
Nelson Costa  - Repensando o passado para melhorar o futuro!     |2009-09-16 22:48:33
avatar Exalto sua confisão de não conseguir tecer uma opinião fechada
sobre o projeto
divino "Igreja".Acredito se algum dia a humanidade
conseguir,os
mistérios de Deus deixam de ser mistérios e a
essência principal da Igreja
"Cristo" fica limitada!
Melhor conselho para o Mateus não existe!
Com
certeza não escreveu demais.
Forte abraço Fábio!
Fábio Davidson  - Valeu!!!     |2009-09-20 15:19:16
Obrigado, Nelson!
Em um mundo de tantas "certezas" acho saudável
fomentar dúvidas, mostrar que as temos e deixar clara a nossa humanidade, não
é?
E, enquanto a vida nos ensina lições, vamos aprendendo um com os
outros.
Grande abraço!

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