02 de setembro de 2010
 
 
Vida na periferia, por quem é de lá PDF Imprimir E-mail
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Por Luis F. Batista   
11 de novembro de 2009

Estado de S. Paulo, 28 de Outubro - Reportagem de Berth Néspoli

Hospital da Gente, da trupe de Taboão, é brilhante radiografia do cotidiano nas bordas da metrópole

Beth Néspoli Hospital da Gente

Começa na Rua Santa Luzia, em Taboão da Serra, o espetáculo Hospital da Gente, mais especificamente diante do portão da sede do Grupo Clariô. É noite de sábado e a reportagem do Estado junta-se aos espectadores para acompanhar a criação dessa companhia que há algum tempo vem despertando atenção pela qualidade de seu trabalho, provocando a chamada propaganda boca a boca. Acostumados às sessões teatrais dos fins de semana, moradores já se colocam às varandas para ver o início da apresentação. Através da janela de uma das casas, no momento mesmo em que uma atriz começa sua cena é possível ver um homem secar a cabeça com uma toalha.

video Assista a cenas da peça
* Gostei dessa reportagem, principalmente pelos insights que traz quando pensamos na grande necessidade de ações missionais na periferia, espero que esta reportagem traga boas idéias e gerem muitas ações a vocês

Mas a atmosfera de precariedade característica das periferias urbanas se dissipa às primeiras palavras da atriz Martinha Soares. Sua atitude corporal, os gestos precisos e expressivos, a voz colocada num tom de voz audível sem perda de nuances e, sobretudo, a segurança que se apropria das palavras de Marcelino Freire, cujos contos são base da dramaturgia da montagem, logo dão ao espectador a certeza de que estará diante de um espetáculo profissional, termo usado aqui no sentido da elaboração cuidadosa, do burilamento necessário à boa arte. Martinha, assim mesmo no diminutivo, é uma das sete atrizes desse grupo dirigido por Mario Pazini que nasceu em 2002, ali mesmo em Taboão da Serra, e há quatro anos conseguiu abrir sua sede, alugando duas casinhas, mantida durante os primeiros três anos sem nenhum apoio financeiro, público ou privado.

Quando o portão se abre, o espectador - conduzido pela personagem do prólogo, uma mulher indignada por ter sido impedida de vender seu rim - se depara com uma cenografia impactante, feita não para olhar, mas para "estar". Em simbiose com as duas casas, construiu-se uma "ocupação" com madeira e centenas de elementos cênicos como varais de roupas, mobiliário e utensílios domésticos, reprodução artística da paisagem visual e sonora característica de uma favela, com seus becos, botecos e barracos. Dentro dessa cenografia-instalação, o público "vivencia" o cotidiano dos moradores.

Flagrantes da vida da periferia? Sim, mas numa abordagem original dessa temática cada vez mais presente em telas e palcos. E não é só uma qualidade "de origem", do lugar de onde se fala, de dentro para fora. Antes de mais nada há um desejo manifestado por esses artistas de entender e discutir a vida nas bordas da metrópole - sem drama. A ausência de autopiedade é elemento essencial na poética da trupe e se faz presente na encenação, na dramaturgia e, sobretudo, nas interpretações. Por exemplo, Naloana Lima, no papel da mulher que "dá" seus filhos paridos, não busca explorar a dor, mas a aguerrida firmeza de quem dela se defende, e assim revela o que a mulher nega. Mérito da direção, essa cena se estrutura numa discussão comum de vizinhas, o que retira dela a intenção de comover. Recurso que, com variantes, perpassa toda a encenação. Aparentemente, são recortes da vida. Na verdade, está-se diante de construção simbólica, da simplicidade fruto de consciente elaboração estética.

Mesmo quando a dor se faz presente, como na cena da prostituta cuja memória do pai que abusou dela na infância vem à tona pelos olhos azuis de um cliente idoso, a atriz Alaíssa Rodrigues consegue expressar sentimentos contraditórios sem cair na autopiedade. Há cenas densas, como a da mãe (Janaína Batuíra) em busca da filha raptada ou da mulher que se recusa a ir à passeata pela paz, uma bela interpretação de Nanura Costa. Há ainda "respiros", como na figura patética encarnada por Maíra Galvão, a dona do "boteco Fênix", que após levar uma surra do marido, compensa o presente árido relembrando (fantasiando?) sua beleza física no passado. A leveza chega em toques de humor, como faz Paloma Oliveira tanto no papel de uma bêbada ressentida, quanto na "evangélica" numa tragicômica discussão com a vizinha prostituta, que pede remédio para o filho.

Pelo menos um espectador soltou o riso na plateia, Gabriel Mota, de 6 anos. "A gente não tinha como deixá-lo", argumentou o casal Gisele e Eduardo Duwal. Na cena do lixão, Gabriel não se conteve: "Não come isso, é sujo, você vai pegar vírus."

Um conjunto de atrizes expressivas integra o Clariô. Naruna, uma das fundadoras, já foi "descoberta" pela televisão, vai estar no elenco da próxima novela da Globo, Tempos Modernos. Não por acaso, a força das mulheres de periferia foi o tema sobre o qual a montagem começou a ser construída, antes mesmo de "entrar em cena" o texto de Freire. "Tínhamos feito algumas peças, o grupo passou por transformações, algumas pessoas saíram, outras se integraram e, de repente, nos demos conta de que éramos sete mulheres e três homens", comenta Naruna. Os homens, no caso, são o ator Will Damas, responsável pela iluminação; o diretor Pazini e o cenógrafo Alexandre Costa, o João, como é chamado. Esse é especial. Assina a cenografia, opera luz e som. "E cozinha muito bem", falam as atrizes em coro. Do processo, o que João mais lembra é das enchentes. "A gente já tinha construído boa parte do cenário e perdeu tudo, tivemos de recomeçar." Não por acaso, a trupe avisa no site: "Se chover não tem peça, risco de enchente" (leia no quadro).

Um encontro feliz de Naruna com o compositor Chico César - cuja canção Beradêro está na trilha e inspirou o título do espetáculo - foi a ponte para conhecer Marcelino Freire. Assim surgiu o texto, tessitura de 12 contos extraídos de seus livros e um inédito, que embasaram as imagens já criadas. A montagem estreou em 2008, recebeu cinco indicações para o Prêmio da Cooperativa Paulista de Teatro e venceu em três categorias: grupo revelação, ocupação de Espaço e trabalho desenvolvido no interior ou litoral.

Até o final de 2008, custos do espaço e montagem sempre foram divididos pelos artistas do Clariô, que têm outras atividades. "O poder público local nunca apoiou. Felizmente temos ótimos vizinhos e apoio da comunidade", diz Pazini. Este ano, pela primeira vez, além de um edital de circulação, o Clariô ganhou o Prêmio Miriam Muniz, da Funarte. Entusiasmados, já preparam uma nova montagem. "Existe uma estética de periferia? O que é estar na borda? Se há margem, o que está no centro? Queremos discutir isso em cena", diz Naruna. Até lá, apresentam Hospital da Gente e abrem a casa para receber outros grupos, todo mês, para apresentações, encontros, debates.


Serviço:
Hospital da Gente. 90 min. 12 anos. 25 lug. Espaço Clariô. Rua Santa Luzia, 96. Reservas pelo tel. 9995-5416. Sábs., 21 h. R$ 10. Se chover, não haverá sessão

Enchente mais uma vez destrói PARTEDA cenografia

 

Beth Néspoli

PREJUÍZO: O fantasma das enchentes que sempre ronda os artistas do Grupo Clariô se fez presente apenas dois dias depois da passagem da reportagem do Estado pelo espaço da trupe, em Taboão da Serra. Em conversa com os artistas, no sábado à noite, muitas foram as histórias de enchente narradas pelas atrizes e pelo técnico de palco Alexandre Souza, o João, que construiu passo a passo a cenografia do espetáculo Hospital da Gente. Tudo parecia remoto, distante. Mas ontem pela manhã, texto dessa página já escrito, um telefonema da atriz Naloana Lima dá conta de que na noite de segunda, a água atingiu 1,5 metro nas paredes do espaço. "Perdemos todA a cenografia móvel, feita para viajar, e muito, muito do nosso cenário", conta Naloana. Enquanto muitos evitavam seguir para Taboão da Serra durante a chuva forte que caiu na tarde de segunda, os atores, ao contrário, deixavam seus trabalhos - eles não sobrevivem de teatro - e corriam para lá na expectativa de mais problemas. Não deu outra. "A gente fica indignado porque a peça ficou um ano e meio em cartaz, a gente sempre falando de enchente, e não consegue mobilizar o poder público. Para nós, atores, a perda é grave, mas a gente limpa tudo, ajeita, e mesmo faltanto coisas vamos fazer a peça no próximo sábado, na garra, como sempre. Mas e os nossos vizinhos? É a vida deles. Na casa em frente, que fica mais baixa, caiu uma parede. Nós perdemos a geladeira, muitos objetos, mas podemos nos virar. Mas eles, a cada chuva perdem coisas essenciais, é preciso recomeçar, isso quando não se perde vidas", protesta a atriz, sob forte emoção.

 

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Última Atualização ( 11 de novembro de 2009 )
 
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