| Igreja Emergente no Contexto Brasileiro |
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| Por K-fé | |||||||||
| 13 de março de 2008 | |||||||||
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A pentecostalização no Brasil tem a capacidade de trazer coisas positivas para a conversa emergente no nível nacional e mundial. As características de crença no sobrenatural e experiência com Deus, em vez da racionalização da fé, têm a simpatia da filosofia pósmoderna. Na verdade, muitos americanos evangélicos (“tradicionais”, como nós brasileiros os classificaríamos) e ingleses admiram tais características. Isto pode ser um item de diálogo entre os hemisférios norte e sul. A pentecostalização também é fator comum com a África [22], onde a conversa emergente se desenvolve (ver também os capítulos iniciais do livro “Everything Must Change” de Brian MacLaren). Certas pessoas migram de comunidades tradicionais para pentecostais motivadas por descontentamentos e anseios de mudanças nas comunidades originais, não tanto pela atração da doutrina pentecostal. Às vezes se frustram com a burocracia de suas denominações originais, ou com a liturgia aparentemente antiga, ou com a conduta de seus líderes, ou com a incapacidade da igreja e pastores de comunicarem em uma linguagem relevante. Este seria um grupo que provavelmente gostaria de considerar uma das duas correntes emergentes nas versões não-pentecostais. E desconfio haver um grupo maior: os dos pentecostais não contentes com a alienação da cultura, linguagem desconexa do cotidiano, conduta de líderes e desconsideração para com problemas sociais. Este seria um grupo que provavelmente gostaria de considerar uma das duas correntes emergentes nas versões pentecostais. Sugiro quatro temas-abacaxi para a conversa emergente no Brasil: teologia da prosperidade, divisão entre sacro e profano, resgate da brasilidade, liderança. A teologia da prosperidade surge no contexto histórico citado acima, de problemas sociais e má distribuição de renda. Nela, o cristão é destinado à prosperidade terrena. [23]É enfatizada pelos neopentecostais (e não os pentecostais propriamente ditos). Particularmente penso que as igrejas emergentes deveriam rejeitar a teologia da prosperidade como uma versão da lei de Gérson. Por trás da teologia da prosperidade reside a idéia de que o indivíduo deve ganhar mais dinheiro a qualquer custo. Na idéia se exclui o próximo. E por a pessoa ser predestinada para o luxo, muito freqüentemente os fins justificam os meios. Vejo aqui de novo o contexto cultural, em que o instinto de sobrevivência faz as pessoas se virarem. Cavando e tentando achar a raiz do problema avistamos o jeitinho brasileiro e a malandragem. Começamos a identificar problemas profundamente enraizados na cultura brasileira. O que é interessante é que mesmo pessoas que não passam necessidades adotam a lei de Gérson. A penetração do neopentecostalismo na classe média é um exemplo disso. As comunidades emergentes deveriam promover a justiça e eqüidade. Deveriam discernir aonde existe ganância em vez de necessidade. Ao invés de apregoar a teologia da prosperidade, deveriam implementar e demonstrar alternativas comunitárias para a melhoria das condições das pessoas mais pobres. A divisão entre o sacro e o profano seria outro tópico chave a ser abordado pela conversa emergente. Muito freqüentemente igrejas apregoam uma “saída do mundo”. Esta saída não significa necessariamente um processo de santificação, nem a abstinência do pecado, mas sim uma criação de uma subcultura evangélica que existe em função de si em oposição a quaisquer alternativas. O crente então é ensinado a se refugiar da cultura original que é vilificada, vestindo uma nova subcultura evangélica. Assim a matriz concebe crentes alienados da cultura. Nesse ponto é importante a conversa emergente incluir o tema da incarnação de Jesus, isto é, o fato de Deus ter se tornado homem, ter se inserido numa cultura, ter entrado na nossa dimensão, ter se relacionado com pessoas (João 3:16 afirma que Deus amou o mundo). Os emergentes lembram que “ao SENHOR Deus pertencem o mundo e tudo o que nele existe; a terra e todos os seres vivos que nela vivem são dele.” (Salmos 21:1). Portanto não existe divisão entre sacro e profano. Nossas vidas não são segmentadas, mas sim um todo. Em vez de monopolizarmos a concepção e a obra de Deus, somos convidados como igreja a identificar os mais variados frontes onde Deus está trabalhando para promoção de seu Reino e a participarmos nesta obra. A idéia é chave para o resgate da nossa própria identidade e cultura brasileiras. A busca da brasilidade decorre da missão de Deus (Missio Dei). Este é um ponto crucial, uma vez que diz respeito à relevância do evangelho numa determinada cultura[24]. Tendo o Filho se encarnado , a igreja também é chamada a se encarnar na cultura local. Logo, a conversa emergente tem a oportunidade de viver o evangelho “em bom Português”. Neste tópico tenho apenas sugestões inciais, sem ter a presunção de ser exaustivo. Sugiro a inclusão do tema em seminários teológicos, convenções denominacionais, novos livros e em publicações de teólogos nacionais, para que haja mais discussões teológicas saudáveis sobre o assunto. (Me interesso particularmente no uso da linguagem. Nesse tópico recomendo especialmente o livro “How (not) to Speak of God”, de Peter Rollins). A revista Time Magazine de 1963 cita o teólogo Karl Barth: “40 anos atrás Karl Barth aconselhou 40 teólogos jovens ‘a pegarem suas Bíblias e seus jornais, e a lerem ambos. Mas interpretem os jornais a partir da Bíblia'” [25] Sugiro o uso das artes com expressões nacionais pelas comunidades. Embora seja difícil de definir o que é genuinamente brasileiro, isto não é problema. De uma forma ou de outra é fácil identificar intuitivamente nas artes características brasileiras. Na música sugiro o uso da linguagem cotidiana, o uso de instrumentos típicos brasileiros, o uso de ritmos e linhas melódicas tipicamente brasileiros. Imaginemos mais repentistas e declamadores nos cultos. Caberiam ainda experimentos na arquitetura. Imaginemos igrejas-CTGs[26]. E por que não conciliar o futebol à liturgia? Por que não cultos em que se ora por ambos os times da cidade antes de jogos? No tópico de resgate da brasilidade sugiro ainda uma maior introdução de elementos afros na liturgia. Imaginemos mudanças na música, na dança e na arquitetura com elementos afros; imaginemos mudanças na ceia (Eucaristia). Pensemos em expressões indígenas na liturgia. Em uma alta interação e mais profunda compreensão da cultura indígena brasileira, ao invés de “mandar missionários e tchau, boa sorte, meu filho. Mande fotos dos selvagens”. (Logo abaixo cito missões reversas). Algumas vezes comunidades indígenas se encontram em situação de mendicância nas cidades. Pensemos, finalmente, que a contextualização brasileira deve ir além da liturgia: a igreja deve entender os anseios do povo brasileiro e ser capaz de comunicar “boas notícias” na mesma dimensão e linguagem.
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